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    CORONAVíRUS

    Primeiro paciente com coronavírus em São Marcos está recuperado: ‘meu sentimento foi sempre de querer melhorar’

    Leia entrevista com o caminhoneiro Celso Grison, de 60 anos, que encerrou o período de isolamento domiciliar na última sexta-feira (15)

    3 semanas atrás

    Caminhoneiro Celso Grison, primeiro caso de coronavírus de São Marcos, está curado

O primeiro paciente diagnosticado com coronavírus em São Marcos já está recuperado. Na última sexta-feira, dia 15 de maio, o caminhoneiro Celso Grison, de 60 anos, encerrou o período de isolamento domiciliar junto aos seus contactantes, que também foram testados e apresentaram resultado negativo para a doença. Na manhã deste domingo, dia 17 de maio, o motorista concedeu entrevista ao L’Attualità.

Caminhoneiro há mais de 40 anos, Celso Grison, que atualmente transporta para a Tio Carlo Transportes, revela que passou por praticamente todas as regiões do Brasil no último mês de abril, período em que contraiu o vírus. “Eu saí de casa dia 1º de abril. Fui para Belo Horizonte (MG), transportando maçã, depois desci com carga de iogurte de Poços de Caldas (MG) para Curitiba (Paraná), e fui também para Brasília (DF), São Luís do Maranhão, Lages (SC), Juazeiro (BH), Rio de Janeiro, São Paulo, Blumenau (SC). Por fim, eu vim para Lages de novo, carregar o caminhão”, detalha Celso, lembrando que começou a sentir os primeiros sintomas em Juazeiro, no dia 23 de abril. ‘Comecei com dor de garganta, dor no corpo e tosse. Eu achava que era uma gripe e fui tomando antiflamatórios a cada 12 horas, que acalmavam as dores”, narra Celso, salientando que no dia anterior havia tomado a vacina contra a Influenza (H1N1), no Piauí. “Até fiquei pensando que o mal estar era por causa da vacina”, comenta.

O caminhoneiro ressalta que durante todo o trajeto que percorreu durante o mês de abril, sempre tomou as medidas de prevenção recomendadas durante a pandemia do coronavírus. “Eu estava sempre de máscara quando descia do caminhão. Gastei uns 5 litros de álcool, mantive o caminhão sempre limpo. Mas pra tomar banho, por exemplo, a gente acaba compartilhando os banheiros nos postos de abastecimento”, observa o motorista. Conforme relembra Celso Grison, no dia 30 de abril, ele começou a sentir o principal sintoma do coronavírus: falta de ar. “Cheguei em Lages para carregar e a carga não estava pronta. O caminhão precisava fazer revisão, daí eu fui na Scania e, quando eu cheguei lá, comecei a sentir falta de ar. Eu liguei pra firma e avisei que estava passando mal, estava preocupado. Disseram que iam mandar automóvel pra me buscar e, enquanto eu estava esperando o motorista, já tirei minhas coisas de dentro da cabine do caminhão e passei álcool em tudo dentro do caminhão, para o outro motorista usar. E aí me trouxeram direto para São Marcos, para o Hospital, e fiz o exame”, relata Celso.

Segundo médico, contaminação do paciente ocorreu entre 8 e 12 de abril: ‘estava em Brasília’

De acordo com o motorista, após ser atendido no Hospital São João Bosco e submetido à coleta de secreção para teste de coronavírus, ele já iniciou o isolamento domiciliar. “Fui para casa. O médico me receitou um antibiótico e vermífugo, porque ele rastreou a minha alimentação. Fiquei 30 dias comendo marmita, aquilo me enjoou também e eu não tinha como saber se era aquilo que estava me fazendo mal”, observa Celso Grison. Conforme conta, segundo o médico que acompanhou o seu caso, ele foi contaminado entre os dias 8 e 12 de abril. “Nesses dias eu estava em Brasília, nesta região. Só tive contato com alguns motoristas, mas nada de aperto de mão, a gente ficava conversando até de noite e eles também estavam usando máscaras. Todo mundo sempre preocupado. O que eu tive mais contato foi com um colega de Caxias do Sul, que também trabalha para a Tio Carlo, e foi monitorado no Rio de Janeiro. Eu liguei ontem para ele, estava lá em Fortaleza e disse que estava tudo bem, mas ele não fez teste de coronavírus”, detalha Celso.

Filho e esposa ficaram isolados com Celso Grison

Conforme conta o filho de Celso, Felipe Grison, após a informação de que o pai era um caso suspeito de coronavírus, a família já organizou a logística para cumprir o isolamento domiciliar. “Eu que fui buscar o pai em Lages, porque eu levei o outro motorista que ia pegar o caminhão dele e voltei com ele, não tinha carro na empresa para fazer isso. Depois que chegamos em São Marcos e o médico que o atendeu no Hospital disse que ele ia ter que ficar em isolamento, porque a suspeita de coronavírus era alta, já liguei para casa. Eu disse ‘vocês saem de casa ou eu levo ele para minha casa pra não ter que ficar todo mundo em isolamento’, senão ia atrapalhar nossa rotina toda, não ia ter ninguém para fazer o serviço. Então nós trocamos, eu vim para a casa dos meus pais e minha irmã e meu cunhado foram para outro lugar. Ficamos eu e o pai, porque eu já tinha tido contato com ele, e a minha mãe também. Ficamos nós três, porque a casa é maior, tem 3 quartos e deu para fazer todo o distanciamento”, explica Felipe.

Conforme detalham os familiares de Celso Grison, a rotina foi modificada para diminuir o risco de contágio dentro de casa. “O jeito de arrumar a mesa para almoçar, o cuidado com a roupa de cama, roupa de banho, mudou tudo. Eu tirava a roupa de cama, lavava tudo separada, não lavava a roupa dele junto com as nossas e nem as máscaras de proteção. Na hora da alimentação, nossa mesa é grande, então a gente ficava um longe do outro”, relata a esposa de Celso, Irone Daros Grison.

Melhora nos sintomas desde 5 de maio: ‘ele nunca piorou’

O resultado do exame realizado por Celso Grison, que deu positivo para coronavírus, foi enviado pelo Laboratório Lacen, de Porto Alegre, no dia 3 de maio, quando Celso já cumpria isolamento. Durante as últimas duas semanas, a família foi acompanhada diariamente pela equipe do Centro de Operações de Emergência (COE) de São Marcos. “Entravam em contato conosco de duas a três vezes por dia, ligavam para o pai e ligavam pra mim para saber como ele estava. E faziam no final do dia chamada de vídeo para ver todo mundo, ver como nós estávamos”, comenta o filho Felipe. De acordo com as profissionais de saúde, Celso começou a apresentar melhoras nos sintomas desde o dia 5 de maio. A informação é confirmada pela esposa de Celso. “Ele nunca piorou, sempre foi melhorando, tanto que não teve febre em casa, acho que só teve febre na estrada, porque ele disse que sentia uns calafrios”, lembra Irone Daros Grison.

Sobre a recuperação rápida de Celso, o cunhado Alciones Daros (Tchony) destaca a importância do motorista ter tomado medicação a base de antibióticos quando sentiu os primeiros sintomas. “No primeiro sintoma gripal, ele não apelou para um chazinho, já usou antibiótico. É uma forma de precaução. Se você tem uma gripe, já vai direto num antiviral, mal não vai fazer, principalmente para quem viaja”, aponta Tchony, que também já foi caminhoneiro.

Celso Grison:  ‘as pessoas ficam com medo do contágio’

Questionado pela reportagem sobre o impacto psicológico de ser o primeiro caso de coronavírus de São Marcos, Celso Ricardo Grison destaca que não se abalou com o afastamento das pessoas. “Ontem eu fui lavar o carro, teve pessoas que vieram conversar comigo, mas sempre ficaram longe. Você vê que elas ficam com medo do contágio. Mas eu não me deprimi. Falando com os médicos, eles dizem que ‘se pegar, pegou, e a maioria vai pegar’ e vai fazer o quê? Eu estava mais preocupado na estrada, quando começou as dores. Mas meu sentimento sempre foi de querer melhorar, rezei bastante”, assinala Celso Grison. Aposentado, ele ressalta que pretende retornar ao trabalho daqui a uma semana.

Os familiares relatam situações de discriminação em São Marcos após a confirmação de que Celso estava com coronavírus. “Houve discriminação porque estávamos isolados. Quando a minha filha ia no supermercado fazer compras para nós, ela disse que era uma coisa, o pessoal parecia discriminar”, conta a esposa Irone Daros Grison. O filho Felipe revela que pessoas informavam os profissionais do COE caso vissem algum familiar de Celso fora do isolamento e relatavam situações que não ocorreram. “Ligavam do monitoramento do COE e pediam se eu tinha ido no mercado, porque o pessoal dizia para o COE que tinham visto eu e meus pais”, relata Felipe. Conforme lembra, nos dois dias após o seu pai ser diagnosticado com coronavírus, houve movimentação de são-marquenses em frente à casa da família. “Na segunda (4) e terça-feira (5), aqui na frente de casa parecia ponto turístico”, finaliza Felipe.