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    Pandemia em São Marcos: ‘Nossas empresas estão posicionadas em setores que não são supérfluos’

    Reflexos da pandemia para as empresas: leia entrevista do L’Attualità com o empresário são-marquense Flávio Sandi, diretor financeiro da Bontempo Móveis

    3 semanas atrás

    Empresário Flávio Sandi avalia reflexos da pandemia para as empresas

Passados 2 meses do primeiro decreto municipal (publicado em 16 de março), com medidas temporárias de prevenção ao contágio pelo coronavírus (covid-19) no âmbito municipal, e confirmação dos 4 primeiros casos do novo vírus em São Marcos neste mês de maio, o L’Attualità voltou a entrevistar o empresário local Flávio Sandi, diretor financeiro da Bontempo Móveis, para analisar os impactos da crise causada pela pandemia para a economia de São Marcos. Flávio, 64 anos, é formado em Administração de Empresas, pós-graduado em Finanças e MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas. Para ele, um dos principais aspectos a serem ressaltados é a mobilização das empresas em prol da prevenção. “Eu vejo que dentro de todas as empresas várias medidas de segurança foram tomadas. Na Bontempo, colocamos mais ônibus para diminuir número de pessoas dentro do transporte para vir trabalhar, aumentamos os horários do restaurante da empresa para diminuir o número de pessoas, aumentamos os espaços, estamos medindo a temperatura das pessoas pela manhã e à tarde, fornecendo máscaras, álcool em gel e, a qualquer sinal ou sintoma, estamos imediatamente afastando o funcionário e o submetendo a teste de coronavírus. Estamos tomando todas as medidas que podemos tomar e a maioria das empresas, que eu tenho contato, através dos meus amigos, também estão fazendo isso, de uma forma ou de outra todos estão se cuidando”, destaca Flávio Sandi.

Conforme aponta, a queda de consumo está maior do que ele havia previsto na última entrevista que concedeu ao L’Attualità, no início do mês de abril. “Está um pouco pior do que eu imaginava naquela época e eu acho que vai ficar pior ainda. Setores muito importantes da economia brasileira estão parados, como, por exemplo, o automotivo. Nós nunca vimos ofertas das montadoras como estamos vendo agora, oferecendo pagar prestações até 2021 (???). Eles estão parados e tem mais de 200 mil veículos nos pátios, porque caiu muito o consumo. O pessoal da construção civil também parou um tempo. Já o nosso setor (moveleiro), na Bontempo trabalhamos com franquias e exportação, que até aumentou um pouco. Segue estável nos Estados Unidos e aumentou um pouco no Chile, onde a gente tem franquia”, revela Flávio.

Bontempo Móveis atingiu 70% da meta de vendas em abril: ‘uma surpresa positiva’

Contudo, conforme ressalta o empresário, no mercado interno, várias lojas franqueadas da Bontempo estão fechadas durante a pandemia. “Em algumas cidades estão fechadas há muito tempo, em São Paulo tem várias lojas fechadas, em Fortaleza também. Nas lojas que não estão fechadas, estão trabalhando em home office a maioria dos funcionários. Nós trabalhamos sob encomenda, então os pedidos que os clientes já tinham fechado, que foram produzidos, estão nas lojas para montar. Mas a maioria dos condomínios não deixam os técnicos de montagem entrar e as pessoas também não querem que ninguém vá na casa delas, devido à pandemia”, relata o empresário. Flávio detalha que no último mês de abril a Bontempo Móveis atingiu 70% da meta de vendas. “O que foi pra nós uma surpresa positiva, porque a gente esperava menos. Temos uma carteira muito grande de projetos que estavam em andamento, em negociação, final de elaboração. Mas as visitações nas lojas estão muito baixas hoje, ou seja, não estão entrando novos projetos e nós temos essa característica diferente de outros, trabalhamos só com projetos”, explica Flávio Sandi.

‘A fábrica tem pedidos para trabalhar até final de junho’

O diretor financeiro da Bontempo revela que a empresa possui encomendas que demandam trabalho até o final do próximo mês de junho. “Como a gente trabalha com encomendas, a fábrica tem pedidos para trabalhar até fim de junho, a pleno vapor. Mas nós tivemos que afastar algumas pessoas da empresa que são do grupo de risco já desde o começo da pandemia, as que têm mais de 60 anos, hipertensos, diabéticos, então estamos com uma falta de pessoal aqui e a Bontempo está produzindo menos que a capacidade por falta dessas pessoas”, conta Flávio. Segundo detalha, a Bontempo teve uma baixa de cerca de 10% no quadro de funcionários durante a pandemia do coronavírus e tem atualmente 300 colaboradores ativos. “Temos uma política de idade na empresa, que é no máximo 60 anos, para funcionários, fora da gerência e diretoria, então já tinha um grupo de pessoas que estavam no programa de desligamento. Elas já sabiam e, como também estavam no grupo de risco, foi feito um acordo, a empresa deu uns meses de plano de saúde e elas já saíram. Alguns afastados ficam suspensos os contratos. Tínhamos duas ou três grávidas, que também foram afastadas, enfim, as pessoas do grupo de risco foram todas afastadas, como cuidado preventivo”, assinala Flávio Sandi.

O diretor financeiro antecipa medidas que deverão ser tomadas nos próximos meses pela empresa, caso a pandemia perdure. “Podemos suspender contratos, dar férias coletivas, e provavelmente vamos optar por reduzir horário, trabalhar um dia a menos por semana, uns 2 meses com pouca renda. Então não vamos parar. E muitas coisas podem melhorar. A gente entende que está numa escala intermediária, porque para atender o público de alto padrão, de nível de renda mais alto, se faz as coisas programadas, e tem mais recursos, então sofre um pouco menos”, observa o empresário. Acompanhe os principais trechos da entrevista:

L’Attualità: Com base no seu conhecimento das empresas de São Marcos, em que grau você classifica o impacto do coronavírus para a economia local, considerando que o perfil são indústrias de autopeças, a grande maioria para caminhão, além de empresas no setor de móveis e vinho?

FLÁVIO SANDI: Eu acho que vai ter uma queda brutal do nosso PIB e vai afetar as empresas daqui também, porém vai ter uma recuperação rápida depois, porque esperam uma grande queda este ano e um crescimento alto ano que vem, então a gente vai ter um ‘gap’ (período de perdas). Acho que São Marcos não vai sofrer muito, as empresas são bem posicionadas para trabalhar em setores que não são supérfluos. O setor de transportes vai continuar e as empresas locais aqui têm um mix de produtos e de serviços para atender a comunidade, as que não vendem para fora.

‘Acho que São Marcos não vai sofrer muito, as empresas são bem posicionadas para trabalhar em setores que não são supérfluos’

L’Attualità: As empresas de São Marcos, em termos de diversificação, têm um leque grande de produtos, e adotam como estratégia não concentrar as vendas para um mesmo comprador, como no caso de quem fornece peças apenas para uma montadora.

FLÁVIO SANDI: Sim, não concentram no mesmo produto, nem no mesmo cliente, é bastante pulverizado.

L’Attualità: O empresário são-marquense é cauteloso, a maioria não tem perfil de muito endividamento, você concorda?

FLÁVIO SANDI: As empresas em geral, aqui da nossa região, são mais conservadoras em termos de endividamento, e isso dá mais segurança para suportar o momento de prejuízo, o momento de crise e continuar. Acho que todo mundo vai perder um pouco, alguns vão perder bastante, muitos vão perder tudo, mas acredito que aqui em São Marcos todo mundo vai perder um pouco. Estava assistindo a um vídeo de um dos maiores fundos de investimento americano e eles estavam falando que esse momento vai trazer algumas tendências, entre elas, uma que ele chama de tendência da desenglobalização.

‘Todo mundo vai perder, alguns vão perder bastante, muitos vão perder tudo, e aqui em São Marcos acredito que todo mundo vai perder um pouco’

L’Attualità: Uma tendência de fortalecimento da indústria nacional.

FLÁVIO SANDI: Isso começou em 2008, porque os americanos estavam brigando com a China por causa disso, que têm uma tendência mais lenta daqui para frente, de um período a curto e médio prazo, em que os governos vão gerar dívidas muito grandes. Isso é um gerador de inflação, então tem uma tendência que as pessoas vão se preocupar mais em economizar. Muita gente percebeu que o momento é grave, crítico, e se a pessoa tem dívidas e não tem uma reserva para enfrentar isso, preocupa muito mais.

‘Há uma tendência de que as pessoas vão se preocupar mais em economizar. Muita gente percebeu que o momento é grave, crítico, e se a pessoa tem dívidas e não tem uma reserva para enfrentar isso, se preocupa muito mais’

L’Attualità: Na verdade aquela sensação de segurança, depois da pandemia, acabou. Sabemos agora que, se a pandemia se vai e tudo volta o normal, já no dia seguinte tudo pode cair muito rápido novamente. Então já tivemos essa experiência, que é melhor se precaver porque no dia de amanhã o mundo pode parar em um segundo.

FLÁVIO SANDI: Há agora uma tendência de mais digitalização, menos viagem. Nos já mudamos aqui na Bontempo. Já não estamos mais viajando, estamos fazendo tudo de forma virtual. E já programamos que o futuro será assim. Nós tínhamos aqui uma programação de os consultores viajarem 3 semanas e uma ficarem em casa, já vimos que irão viajar uma semana e 3 irão ficar em casa. Isso vai trazer uma economia também e mais conforto para todos também. Mas uma coisa que os especialistas e estudiosos estão dizendo como tendência certa é que, no mundo todo, vai ter uma aumento das desigualdades. Vão vir mais desempregos.

Sempre depois das crises acontecesse isso, porque durante as crises há um desemprego violento e as empresas acabam buscando alternativas para ganhar produtividade e depois não contratam de volta todos que demitiram ou pelo menos demora muito para que isso aconteça.

‘A história nos mostra que momentos de crise são momentos de oportunidades. Até porque alguns perdem espaço, perdem mercado. É uma oportunidade de contratar talentos’

L’Attualità: São Marcos até a pandemia estava com uma necessidade muito grande de mão de obra qualificada e havia, digamos, uma demanda não atendida. E talvez a pandemia também seja um momento de oportunidade para as empresas de São Marcos contratarem talentos que até então não estavam disponíveis no mercado.

FLÁVIO SANDI: A história nos mostra que momentos de crise são momentos de oportunidades. Isso é histórico. Nesses momentos surgiram novos caminhos, novas estratégias. E sempre é um momento de oportunidades, até porque alguns perdem espaço, perdem mercado. É uma oportunidade de contratar talentos, mão de obra mais qualificada. Ou que antes custava muito caro, tinha que trazer de fora ou tirar de outra empresa, então realmente você tem razão nisso. São Marcos sempre vai ter carência de mão de obra qualificada, não somente em São Marcos mas no Brasil, e na maioria dos países do mundo. Mas vejo que São Marcos melhorou muito em relação a isso, evoluiu muito, as empresas investiram bastante, CIC e CDL vivem oportunizando cursos de aperfeiçoamento, ficou mais fácil o acesso a cursos técnicos, curso superior, muito mais pessoas qualificadas, melhorou muito nos últimos anos. Passou a ser necessário investir em treinamento, para ter mais produtividade, menos produtos com defeitos. Mas isso não pode ser interrompido.